O início de tudo

Toda história de um programa ou sistema livre começa com uma situação na qual o desenvolvedor principal tinha uma necessidade ou curiosidade e, por falta de dinheiro, iniciativa própria, vontade de aprender uma linguagem nova ou pelo sonho de ficar milionário, resolveu tomar o problema e resolvê-lo com suas próprias mãos.

Em inglês existe uma expressão para isso, “scratch your own itch”, ou coçar sua própria coceira. Provavelmente o motivo maior de crítica em relação a programas opensource seja derivado desta expressão, já que é difícil coçar a coceira dos outros e fora raríssimas exceções, o responsável por um projeto impõe seu ritmo e visão ao mesmo.

Antes do advento do kernel do Linux, já existiam pacotes open source distribuídos gratuitamente, e a história já é bem conhecida por todos. A criação do Apache, servidor web usado por mais de 62% de sites na internet segundo a Netcraft, seguiu uma linha semelhante balanceando necessidade com falta de alternativa no mercado.

Com a evolução de nosso setor, e ainda contando com o Linux como sistema operacional, muitas empresas começaram a usar PHP, MySQL e Apache como plataforma para seus sistemas, alternativa considerada madura e estável. O PHP foi criado inicialmente como uma biblioteca de apoio e suporte a aplicações escritas em linguagem C para a web.

Este rodeio serviu para introduzir a história de Mark Spencer. Mark resolveu montar um negócio de suporte técnico para Linux. Como toda empresa em seu início, sua verba era limitada e insuficiente para comprar uma digium-mark-spencerferramenta crucial à sua operação: um sistema de PBX. Como já era um desenvolvedor open source, foi autor do GAIM, programa de mensagens instantâneas, entre outros.

Mark publicou seu trabalho e uma comunidade começou a se formar em torno dele. O programa foi batizado de Asterisk, e em pouco tempo já possuía recursos que eram encontrados somente em aparelhos caros de PBX.

Notando que o mercado carecia do hardware necessário para aplicar o sistema efetivamente, Mark montou um negócio para fabricar estas placas e aparelhos. A empresa se chama Digium e se dedica a vender hardware e suporte, para bancar o desenvolvimento do Asterisk, que continua com o código aberto, mudando o rumo de sua empresa de suporte técnico apenas para provedora de soluções em telefonia.

Com um pouco de sorte e muita competência, ele embarcou na crescente onda de Voz sobre IP (VoIP) em grande estilo, como fornecedor de uma solução que equivale ao que o Apache foi para a expansão dos servidores na internet.

É interessante o efeito colateral do uso de algumas tecnologias aqui no Brasil. Durante muito tempo, técnicos ganharam seu dia instalando e configurando máquinas com Linux usadas como firewall, para compartilhar uma conexão à internet, ou mesmo como ponte entre as linhas privadas instaladas entre pequenos provedores e empresas menores ainda.

Imagine só uma linha usada para ligações 0800 transformada em um link para internet de 33,6 Kbps e, posteriormente, de 56 Kbps. Durante um tempo provedores se sustentavam disso, até o mercado de internet se estabelecer, sempre usando Linux como base, e variados programas e scripts feitos para outras finalidades.

Com o Asterisk está acontecendo a mesma coisa. Com sua flexibilidade de configuração e recursos, o programa se tornou base para que empresas nacionais começassem a fornecer serviços de VoIP a um preço muito baixo. Muitos técnicos estão mudando de firewalls e gateways para “instaladores de VoIP”.

A cada dia surgem integradores que aproveitam a estrutura existente de PBX de uma empresa, e usando servidores comuns com placas baratas integram uma rede de telefonia normal à internet fornecendo serviços de chamada à longa distância com custo mínimo.

Surgiram muitas alternativas para prestação de serviço de terminação, que é a ponta final que liga a internet com a rede telefônica comum, tanto em território nacional quanto para chamadas de longa distância, todas acessíveis e com preços chegando a casa de 0,01 centavo por minuto dependendo do destino.

Se você ainda não considerou esta solução, recomendo uma visita à comunidade brasileira do Asterisk em http://www.asterisk.org. Procure mais informações e comece como eu, fazendo uma secretária eletrônica e uma central de redirecionamento de chamadas com um modem simples. Aí você vai entender melhor o significado de atirar no que viu e acertar no que não viu. Mark Spencer entende.

Fonte: Gleicon Moraes

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